Atlas – Como levar o mundo nas costas?

Pensar é um ato silencioso, normalmente auto-estimulado, mas que pode ser ativado por sons, cheiros ou imagens… Nosso sentidos permitem darmos sentido às coisas. Em uma tese de geografia, propor a elaboração de uma Atlas que não se limita ao geográfico é tarefa hercúlea, ou seria melhor dizer, tarefa para Atlas:

Atlas

A mitologia grega conta que o titã chamado Atlas, junto com seu irmão Prometeu, quis enfrentar os Deuses do Olimpo para tomar o poder deles e dá-lo aos homens. Conta que foi castigado […] foi obrigado a sustentar com seus ombros o peso da abóboda celeste inteira. Conta também que levar esta carga lhe fez adquirir um conhecimento infranqueável, e uma sabedoria desesperante. Foi precursor de astronautas e geógrafos, e inclusive alguns dizem que foi o primeiro filósofo. […]

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“Quando colocamos diferentes imagens – ou diferentes objetos, como as cartas de um baralho, por exemplo – em uma mesa, temos uma constante liberdade para modificar sua configuração. Podemos fazer pilhas, constelações. Podemos descobrir novas analogias, novos trajetos de pensamento. Ao modificar a ordem, fazemos com que as imagens tomem uma posição. Uma mesa não se usa nem para estabelecer uma classificação definitiva, nem um inventário exaustivo, nem para catalogar de uma vez por todas – como em um dicionário, um arquivo ou uma enciclopédia –, mas sim para recolher segmentos, trocos do parcelamento do mundo, respeitar sua multiplicidade, sua heterogeneidade. E para outorgar legibilidade às relações postas em evidência.” (DIDI-HUBERMANN, 2010).

[http://culturaebarbarie.org/sopro/outros/atlas.html]

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“Cidade e mobilidade” são indissociáveis, se coproduzem e se explicam reciprocamente

O urbanista francês Marc Wiel (2002, p. 16), falecido em 2014, faz a constatação do título e afirma que “a mobilidade participa da definição da cidade” e que “são as avaliações das famílias e das empresas para organizar sua mobilidade em função de sua localização, e reciprocamente, que modelam e desenham a cidade”.

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Foto: Marcelo Amaral, Paris (2013) eLisboa (2009). 

A não compreensão dessa relação pode levar a certos equívocos, como a autonomia excessiva da política de mobilidade em relação à política urbana, que ele qualifica como a “fonte de todas as nossas dificuldades” (WIEL, 2005, p. 2).

Para Wiel, o que justifica essa incompreensão é ver a cidade “como uma forma material e simbólica, portanto estática, e não como um sistema dinâmico se adaptando permanentemente às incessantes e flutuantes interações de seus ocupantes”.

Artigo “Aberturas e apropriações pela mobilidade urbana: a potencialidade transformadora das “pequenas práticas” sociais” (no prelo).

Referências:

WEIL, Marc. Questions de mobilité – la mobilité en questions.Apostila do curso (capítulo 1). Brest: Institut de Géoarchitecture de Brest, 2005. não publicada.

WEIL, Marc. Ville et automobile. Paris: Descartes & Cie, 2002.

Milton Santos e os homens lentos

Milton Santos, em um texto extraído da transcrição de uma de suas conferências que trata do tempo nas cidades, lança uma proposta de diferenciação entre os tempos lentos e os tempos rápidos.

“Tempo rápido é o tempo das firmas, dos indivíduos e das instituições hegemônicas e tempo lento é o tempo das instituições, das firmas e dos homens hegemonizados. A economia pobre trabalha nas áreas onde as velocidades são lentas. Quem necessita de velocidades rápidas é a economia hegemônica, são as firmas.” (SANTOS, M., 2002, p.22).

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Esta dimensão mais politizada pode resultar em uma defesa de uma cidade dos homens lentos, onde se prioriza a mobilidade lenta?

“Durante séculos, acreditáramos que os homens mais velozes detinham a inteligência do Mundo. […] Agora, estamos descobrindo que, nas cidades, o tempo que comanda, ou vai comandar, é o tempo dos homens lentos. Na grande cidade, hoje, o que se dá é tudo ao contrário. A força é dos “lentos” e não dos que detém a velocidade elogiada por um Virilio […]. Quem, na cidade, tem mobilidade – e pode percorrê-la e esquadrinhá-la – acaba por ver pouco, da cidade e do mundo.”(SANTOS, M., 1996, p.220).

Lefebvre: um dos pontos de partida!

Não dá para começar sem falar n’Ele… sua majestade, o carro!

Ação de "vaga viva"  (re-apropriação do espaço de vaga de estacionamento) realizada em Belo Horizonte, setembro de 2014. Fonte: Maria Objetiva
Ação de “vaga viva” (re-apropriação do espaço de vaga de estacionamento) realizada em Belo Horizonte, setembro de 2014. Fonte: Maria Objetiva

“O Automóvel é o Objeto-Rei, a Coisa-Piloto. Nunca é demais repetir. Este Objeto por excelência rege múltiplos comportamentos em muitos domínios, da economia ao discurso. O Trânsito entra no meio das funções sociais e se classifica em primeiro lugar, o que resulta na prioridade dos estacionamentos, das vias de acesso, do sistema viário adequado. Diante desse ‘sistema’, a cidade se defende mal. No lugar em que ela existiu, em que ela sobrevive, as pessoas (os tecnocratas) estão prestes a demoli-la. […] Concebe-se o espaço de acordo com as pressões do automóvel.” (LEFEBVRE, 1991, p. 110).